Covid-19 | Foi necessário um vírus para desacelerar o mundo!

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Isabelle Olveira IMLUS, Presidente do Instituto do Mundo Lusofono

Foi necessário um vírus para percebermos a fragilidade da humanidade. Ainda há bem poucas semanas atrás nos sentíamos os reis do céu e da terra, armados com tecnologias de ponta e inteligência artificial. Subitamente descobrimo-nos frágeis seres diante da omnipotência imaterial de um vírus devastador.

Foi necessário um vírus para demonstrar que classe social, raça, crença, orientação sexual não tem diferença diante uma pandemia : ninguém está imune ao coronavírus. O novo coronavírus é bastante democrático no sentido que não poupa mesmo ninguém, alimentando até teorias da conspiração de que teria sido criado para eliminar a população mais velha. Uma teoria repleta de ironia se pensarmos que muitos dos líderes mundiais já se encontram no chamado grupo de risco.

O vírus deu uma trégua na polaridade, afinal estamos todos no mesmo barco, olhando na mesma direção, numa Europa que fecha fronteiras, iludindo-se de forma hipócrita e infantil que seja possível deter o virus tão ardiloso e potente com barreiras aduaneiras, em vez de abraçar uma colaboração ainda mais solidária com os demais. Por isso, são necessários recursos, sabedoria, competências, ações coletivas. É necessário governos com bom senso apoiados pelos máximos peritos das ciêncas médicas, da economia, da sociologia, da antropologia, da psicologia social e da comunicação. Talvez tenhamos aprendido que perante um problema tão complexo, todo o alarmismo, todo o exagero, toda a carência e excesso de informações sejam critérios nefastos que levam à desumanização

O vírus privou-nos do abraço para percebermos o quanto ele é valioso. De repente, o descanso compulsório em casa nos obrigou a uma convivênca forçada que para alguns parece aprazível, mas que para outros é invasiva. Vamos aproveitar esse isolamento total para nos entregarmos a um ócio criativo conjugando o lúdico com um regime de teletrabalho que as empresas se obrigam agora a adotar. Cá está uma resposta  naquilo que os antropólogos definem como « cultural gap » das empresas.

Um dos efeitos positivos do Covid-19 foi o recuo drástico da poluição global graças à paralisação das indústrias e redução do trânsito, algo que pode acabar por salvar vidas. O vírus veio mostrar-nos que o ar pode ficar mais puro com a diminuição de carros circulando, e mostrar que as pessoas  podem e devem caminhar mais.

O vírus veio ensinar-nos que não devemos subestimar as coisas pequenas. Afinal ele é tão pequeno, invisível aos olhos e está mudando o nosso comportamento no mundo.

Foi necessário um vírus para o mundo acordar! Vamos aprender “às nossas custas” mas acredito que depois seremos pessoas totalmente diferentes! Quero acreditar que esta tragédia chamada coronavírus tenha trazido alguns ensinamentos à humanidade como o combate ao contínuo alargamento do abismo entre ricos e pobres, a intolerância e a degradação ambiental. Que este drama inspire os nossos governantes na construção de uma ordem internacional mais justa, equitativa e solidária com novo vigor.

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