Pão de Queijo na França

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Gosto de casa

Acordei hoje com uma mensagem no celular. Um amigo me pedindo para escrever sobre pão de queijo. Ele é quem faz a importação do produto para a França.
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Eu, na verdade, escrevo sobre o que vem à cabeça e nem sou um escritor. Veríssimo diz que seu sax é o futebol do Chico Buarque, e eu penso o mesmo das minhas crônicas.
Então, como corromper minha jovem vocação fazendo textos de encomenda para pão de queijo?
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Mal comecei minha carreira de cronista, tenho inclusive fugido discretamente de um amigo editor que demonstrou vontade em publicar meus escritos.
Seria impensável, na aurora de um ofício tão nobre, me vender e aceitar uma matéria paga.
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Sim, paga! Ele, acreditem, me propôs pagar a crônica em pão de queijo e eu aceitei, claro!
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Como não aceitar ser pago em pão de queijo?
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Marcio Faraco e o Pao de Queijo em Paris
Marcio Faraco e o Pao de Queijo em Paris


Vocês sabem o que é morar num lugar que não tem jujuba, Sonho de Valsa e biscoitinho de goiaba? Se estiver vindo do Brasil visitar um amigo, traga um pacote de Bis pra ele. O cara vai ser seu amigo pra sempre.
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Se vocês vissem minha mala quando venho do Brasil, pensariam que tenho uma barraquinha e trabalho como camelô no Champs-Elysées. Trago para mim e para os outros porque é preciso ser solidário numa situação dessas.
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Sei que é difícil aceitar, mas mesmo morando no país dos perfumes ao lado da Suíça, já tive encomendas de Leite de Rosas e Bombons Garoto. O problema do feijão já resolvemos nos mercados africanos, a tapioca nos asiáticos mas se é impossível achar paçoquinha, imaginem pão de queijo.
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É mais do que um prazer gustativo, é uma afirmação da nacionalidade. O pão de queijo revela com mais infalibilidade se você é brasileiro do que passaporte eletrônico ou reconhecimento facial.
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É um teste seguro que lembra aquele feito durante a Segunda Guerra Mundial na base brasileira em Monte Castelo, na Itália.
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Na guarita o pracinha ouviu alguém se aproximando. Aos berros, o vulto pedia calma ao vigia e se declarava brasileiro. Na dúvida, o sentinela fez um pedido:
« – Então faça o seguinte: cante um samba. »
O homem cantarolou um dos grandes sucessos de 1940, « Atire a primeira pedra », de Mário Lago e Ataulfo Alves, e conseguiu assim reintegrar o batalhão.
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Eu, desertor do Colégio Militar de BH aos 14 anos, nunca estive na guerra, mas fui parado duas vezes pela Polícia Federal no Rio de Janeiro, vindo para a Europa. O policial entrou no avião e gritou:
– Senhor Faraco!
-Eu.
-O senhor pode me acompanhar?
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Me levou até o subsolo do aeroporto e eu já estava entendendo o porquê. Não era a primeira vez.
-Tenho vindo muito aqui, disse ironicamente.
-Ah é?, reagiu com ar cínico o agente, já se imaginando delegado com a futura promoção por apreensão recorde de drogas.
-O sr reconhece essa valise?
-Sim, é minha.
-Pode abrir?
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Quando abri, ele rapidamente colocou a mão no fundo da mala, afastou o carregamento de sabão Phebo e tirou um pacote de café Pilão. Tinha ali uns dez pacotes de quinhentos gramas.
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Decepcionado, agradeceu minha cooperação com um obrigado murcho e, cabisbaixo, me levou de volta ao avião.
Sério, respeitando o trabalho do policial, mas lacrimejando de tanto segurar o riso, completei meu estoque de café até uma próxima viagem ao Brasil.
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Ter corrido tantos riscos, ter sido confundido com traficante de maconha por causa da erva-mate, como não aceitar um suborninho calórico em forma de pão de queijo? Sobretudo do amigo querido Antonio Cancado?
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Afinal, se não der certo minha carreira de escritor, posso ainda tentar a sorte na música 🙃
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A propósito, alguém aí trabalha na Fender?
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*Márcio foi pago com uma tonelada de pão de queijo e viajou pela Varig.
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Pão de queijo na França.
Pelo site:
https://www.brasil.fr/…/pao-de-queijo-forno-de-minas-surge…/ 
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Na loja:
La Paleteria 
4 rue des Ecouffes 75004 Paris 
Métro Saint Paul 
Aberto 7/7 de 13 as 22h


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