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Les Actualités Loalwa Braz

mercredi 03 mars 2010

Revista Raça (BRASIL) Entrevista

 

 

 

Perfil

Loalwa Braz
  Memórias de Loalwa
Ex-vocalista do grupo Kaoma - sucesso mundial nos anos 1990 com a lambada - relembra fatos marcantes de sua vida e carreira

por Amiltom Pinheiro

 foto Rafael Cusato

Loalwa Braz, então com 17 anos, era crooner de uma banda que se apresentava nos clubes grã-finos do Rio de Janeiro. Certo vez, saiu radiante do bairro de Jacarepaguá, onde nasceu e se criou, para cantar no Iate Clube da cidade. Preparou-se muito para isso, contou para toda a família, vizinhos e amigos sobre o baile. Porém, ao chegar lá, um dos funcionários a mandou entrar pelo portão dos fundos, destinado aos empregados de serviços gerais. Surpresa com a atitude, Loalwa disse que era a cantora do grupo que se apresentaria naquela noite. Ninguém acreditou! "Percebi que estava sendo discriminada por ser negra e pelo meu estilo. Sempre tive orgulho da minha parte africana e de usar o meu cabelo natural, duro e esvoaçado. O funcionário pensou que eu era uma serviçal apenas pela minha cor e aparência. Comecei a chorar, mas mesmo assim insisti para entrar", conta. Dado por vencido, o funcionário finalmente a deixou passar pelo portão principal. "Isso já havia acontecido outras vezes comigo, mas nunca me esmoreci diante de nenhum preconceito, principalmente preconceito racial", esclarece Loalwa.

Antes mesmo de o grupo Kaoma estourar em Paris, em junho de 1989, a cantora já morava na Cidade Luz havia quatro anos, onde soltava a voz em festivais de jazz. Filha de uma pianista e de pai chefe de orquestra, sua formação musical era clássica e também popular, tanto que os amigos se assustaram quando ela se interessou pelos testes para ser vocalista de um grupo de lambada. "Falaram que eu não devia fazer aquilo, pois eu cantava música de qualidade, como o jazz. Eu que nunca tive frescura em relação a isso, não pensei duas vezes", conta. A seleção, porém, exigia mulheres com no máximo 25 anos. Loalwa estava com 32 na época. "Fui a primeira a fazer o teste e logo percebi que gostaram de mim. Fui escolhida!". Com a vocalista, nasceu o grupo Kaoma que, em um curto espaço de tempo estourou em Paris e conquistou a Europa. Em pouco mais de seis meses o mundo inteiro já estava "dançando lambada". O grupo durou de 1989 até 1998, quando lançou o último CD na Europa. Mas Loalwa nunca parou e, sempre cantando em português, continuou levando o ritmo aos quatro cantos do mundo.

"Fiquei chocada com a indiferença dos negros ricos daquele país (zaire ), que passavam nos seus carrões como se não existisse toda aquela miséria em volta"

foto Divulgação
Loalwa com o seu novo visual - tranças jamaicanas, feitas pelas profissionais; Simone Alves, Cida Luzo e Ana Lúcia Santos do Jacques Janine Campo Belo

França e África:
Lugares em ebulição

Os quase 25 anos morando em Paris deram a Loalwa uma noção exata do que é ser parisiense, ser francês, de fato. Questionada sobre a violência que assolou a periferia da cidade algum tempo atrás, ela foi enfática: "É muito difícil para um francês conviver com os imigrantes que tomaram conta de Paris, vindos de diversas partes do mundo. Para se ter uma ideia, se você andar de metrô pela cidade, em determinadas horas, ninguém está falando francês, pois a maioria que imigra para lá não aprende o idioma, tampouco os costumes e a cultura francesa.
Então, para o francês é difícil essa falta de adaptação dos imigrantes. O problema é não conseguir se integrar ao país e, por isso, eles vivem às margens da sociedade", analisa.

Por causa do sucesso do grupo Kaoma e, depois, de sua carreira solo, Loalwa Braz conheceu mais de cem países e foi em alguns lugares do continente africano que ela passou a ter outra visão sobre determinadas coisas. No início da década de 1990 foi fazer um show no Zaire, governado pelo ditador Mobutu na época. Lá, Loalwa teve uma das maiores lições de sua vida. "Eu pedi à minha produção para andar um pouquinho pela cidade, sair sem rumo pelas redondezas do hotel. A cidade era muito quente durante o dia e, conforme eu andava, percebia que as pessoas caminhavam saltitando. Logo percebi que era porque não tinham sandálias. Como o chão era muito quente, elas precisavam dar pulinhos para aguentar andar", relembra. Loalwa conta, ainda, que muitas pessoas eram transportadas em caminhões em estado lastimável de preservação, o que provocava muitos acidentes fatais nas estradas.

A pobreza era muito grande! "Fiquei chocada com a indiferença dos negros ricos daquele país, que passavam nos seus carrões como se não existisse toda aquela miséria em volta. Conheci um dos filhos do ditador Mobutu, que morava em Paris, e ostentava muita riqueza. Todos os filhos de Mobutu andavam de Ferrari pelas estradas cercadas pela miséria, fome, morte e moribundos. Fiquei chocada com a falta de sensibilidade dos abonados do Zaire com seus irmãos", lamenta a cantora.

foto Arquivo Pessoal
Loalwa Braz e o grupo Kaoma no final dos anos 80

Dançando lambada

O grupo Kaoma vendeu mais de 25 milhões de discos e, mesmo com seu fim, em 1998, Loalwa seguiu carreira solo e nunca deixou de cantar o ritmo que a tornou conhecida em todo o mundo. Ela veio ao Brasil preparar o lançamento de um CD com a participação de diversos músicos do mundo e alguns cantores brasileiros de lambada, como Márcia Ferreira e Beto Barbosa. Também pretende fazer um DVD. "Quero mostrar a influência das diversas culturas que aprendi ao longo desses 20 anos. A lambada já existia no Brasil, não foi um mérito do Kaoma, que apenas ajudou a divulgar esse ritmo para todo o mundo", diz. E como todo sucesso chama a atenção de "picaretas" de plantão... "Por conta das comemorações dos 20 anos de lambada e grupo Kaoma, alguns produtores e cantores interesseiros rebatizaram o ritmo de zouk, que não é brasileiro e sim uma dança caribenha. Então, devemos ter orgulho de termos inventado a lambada", completa a cantora.

http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/135/imprime149976.asp

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